O que a gente faz depois que enterra um amor errado (amar sempre é certo, eu sei, mas é um amor que não deu certo, por isso amor-errado)?
Opção 1: tornar-se um ser assexuado.
Essa opção é econômica, o potencial de risco à saúde é baixíssimo (saúde física, porque da mental a gente nem fala, pois essa já nem existe mais). Sobra muito tempo (muito muito muito tempo é a expressão correta) para cursos, para o trabalho, para os amigos (amigos? Xii ta todo mundo namorando, merda!), ou seja é tempo, basta ter muita criatividade para utiliza-lo. Provavelmente ficará mais bonita, se for uma amante dos esportes ficará no mínimo mais sarada, se não provavelmente vai prestar mais atenção a si mesma e procurará melhorar o visual. Sua mãe vai estranhar as recentes e constantes ligações. E incrivelmente a conta do telefone vai diminuir (se no seu histórico o namoro à distância é uma opção reincidente).
Mas aconselho só por um tempo, para preparar a terra, tirar todo lixo, desinfetar o ambiente.
Opção 2: Outro amor.
Olha essa é das duas a com maior chance de dar merda, de repetir os erros passados, de caminhar mais uns passinhos em direção ao sanatório, mas é a que 100% dos corações quebrados escolherá. Primeiro, você não vive num aquário, há pessoas nesse mundo (thanks god!) e elas cruzam o seu caminho quer você queria quer não, e com elas surgem as possibilidades de acontecer um outro amor. Segundo, sua mente adulta e iluminada pensará “o que? Eu vou ficar sozinha enquanto aquela vaca, feia, burra, desclassificada (pode substituir por outros adjetivos carinhosos e elevados) está se divertindo, nem morta!.
Bem é ai que as cacas acontecem.
Seja qual for a opção escolhida (e tem muitas outras, pode ter certeza), que seja uma escolha para a felicidade. E deixe de ler abobrinhas e enxergue o que importa:
NÃO SE MATE
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá.
Carlos Drummond de Andrade